Imagem retirada de https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51289892
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Ao anunciar a nova reunião, o diretor-geral da agência, Tedros Adhanom Ghebreyesus, explicou que apenas 1% dos mais de 6 mil casos confirmados até agora do vírus descoberto em dezembro foram registrados fora da China.

Mas ele destacou que já foram notificadas transmissões do novo coronavírus em ao menos outros três países. "O potencial de maior disseminação global é o motivo pelo qual convoquei o comitê", disse Ghebreyesus.

A decretação de uma situação de emergência de saúde pública de interesse internacional é uma medida usada raramente, apenas para eventos mais graves que podem demandar ações globais para conter a transmissão de uma doença.

O que é uma situação de emergência internacional?
A OMS a define oficialmente como um "evento extraordinário que constitui um risco à saúde pública para outros Estados por meio da disseminação internacional de doenças e potencialmente exige uma resposta internacional coordenada".

Ela é decretada a partir de uma recomendação feita por um comitê de especialistas ao diretor-geral da agência.

Este grupo já havia se reunido no final da semana passada, por dois dias seguidos. Na ocasião, a OMS concluiu que ainda era cedo para considerar o surto era uma situação de emergência internacional e que mais informações eram necessárias para tomar essa decisão.

A situação era, naquele momento, bem diferente de agora. Havia pouco menos de 600 casos confirmados na China e outros sete países, e menos de 20 mortes causadas pelo 2019-nCov, como é chamado oficialmente o novo coronavírus.

Também não havia sido registrada a transmissão do vírus fora da China. Desde então, eventos deste tipo foram notificados por Alemanha, Japão e Vietnã.

Ao mesmo tempo, já há mais de 7 mil casos confirmados em um total de 16 países e 170 mortes, todas na China.

Por estes motivos, infectologistas ouvidos pela BBC News Brasil consideram provável que seja decretada uma situação de emergência pela OMS ao fim da nova reunião de seu comitê.

Decisão permitiria mobilizar mais recursos para conter surto
Rivaldo Venâncio, coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), destaca que, na semana passada, a agência já havia informado que a decisão de não decretar uma situação de emergência não havia sido unânime. Isso indica que alguns membros do comitê já haviam identificado que esta medida seria necessária.

E, na segunda-feira passada, a OMS admitiu ter ocorrido um "erro de redação" na divulgação da avaliação de risco global da epidemia, até então identificado como "moderado" em seus relatórios e que passou a ser descrito como "elevado".

No entanto, a agência disse que a avaliação da situação permanece a mesma desde 22 de janeiro, com um risco "muito alto" na China, e "alto" regionalmente e no restante do mundo.

"Mesmo que eles não decretem uma situação de emergência, devem elevar o nível de alerta quanto ao surto e apontar que o problema pode ser mais grave do que imaginavam, porque houve em uma semana uma evolução razoável do surto e dia após dia quase dobrou o número de casos registrados", diz Venâncio.

"Isso abre caminho para tomar uma série de medidas como liberar mais rapidamente o teste de medicamentos e vacinas e pedir que sejam publicadas informações de observações clínicas e laboratoriais de casos do vírus."

'Situação é preocupante, mas não há motivo para pânico'
Kleber Luz, professor do Instituto de Medicina Tropical da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, avalia ser provável que a OMS decrete uma situação de emergência por causa da rápida evolução do surto e porque isso facilita o combate ao vírus.

"Se isso ocorrer, vai haver uma maior mobilização dos organismos de saúde de todos os países, tenham sido eles afetados ou não, e há como obter um volume maior de recursos financeiros e de pessoal e permitir que uma vacina seja desenvolvida mais rapidamente", diz Luz.

"Decretar uma emergência não bloqueia a doença, mas facilita seu enfrentamento."

Benedito da Fonseca, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, explica que os casos de transmissão fora da China são preocupantes, porque, a partir deles, é possível que ocorram outros contágios que deem origem a surtos locais.

"Emergência é uma palavra forte. O número de casos vem crescendo rapidamente, mas, ainda que este coronavírus pareça ser mais transmissível que outros que causaram surtos no passado, ele aparentemente é menos letal", diz Fonseca.

"Então, é de fato uma situação com a qual devemos ficar muito preocupados, mas não pode haver pânico."

Fonte: BBC Brasil